O projeto dispõe-se antes de tudo, discutir a Dança Mestiça Cearense
enquanto potência cênica na contemporaneidade, catalogar seus códigos
tradicionais, redimensiona-los e produzir por consequência três obras
coreográficas a serem compartilhadas com o grande público.
O termo Cafuzo ou carafuzo é resultado da união entre negro e índio. Vários
dicionários, como o Houaiss, apontam "origem controversa". O etnólogo
angolano Óscar Bento Ribas afirma que vinha do quimbundo kufunzaka,
"desbotar". Nosso Ceará é terra de Cafuzos, que para as camadas mais
populares ganhou uma outra conotação e significado. O termo transformou-se num
neologismo brasileiro para adjetivar os homens mais rudes, de baixa renda, e
que geralmente moram nas periferias das cidades. De Cafuzu passou a se chamar
“Cafuçú”. Essa conotação dada ao homem Cafuzu ou Mestiço, na verdade resulta de
um preconceito histórico para com as camadas pobres que habitam as favelas e
periferias das cidades e interiores, especificamente para com as pessoas que
trazem nos seus rostos /corpos os traços do Negro e do Índio, imagens que ainda
pairam no inconsciente de nossa população com rumores de desprezo, medo e
repugnância.
O Corpo Cafuzu que mora nos sertões e periferias do Ceará trazem elementos
estéticos/dramatúrgicos/poéticos que nascem da fusão de diversas etnias,
nações, tribos, aldeias, quilombos e terreiros, dignos de nossa atenção e olhar
investigativo. Trata-se do corpo mestiço, de corporeidades singulares nascidas
das nossas ancestralidades e que ganharam na sociedade contemporânea novos
formatos, modos de se manter e existir no bojo da periferia.
O objetivo principal desse projeto é desenvolver um Duo e um Solo que partam
dos códigos de dança presentes nos rituais da Umbanda Cearense, as
corporeidades dos Índios Tremembé e das Danças Urbanas reinventadas na Cidade.
Os três intérpretes-criadores beneficiados passarão por etapas distintas de
investigação/criação: 1ª Etapa - Oficinas de Dança Afro, danças indígenas e
Danças Urbanas; pesquisa de campo em terreiros, comunidades indígenas e
periferias de Fortaleza; Palestras abertas a partir dos temas “Mestiçagens e
hibridismos afro-indígenas na cena contemporânea”. 2ª Etapa – Oficinas:
“Paralelos entre os princípios de Laban e as danças afro cearenses”, “Paralelos
entre Laban e as Danças Indígenas”, “Paralelos entre Laban e as Danças
Urbanas”; Palestras sobre os temas: “Antropologias e poéticas afro-ameríndias”,
“Estéticas da periferia” e “Filosofias ancestrais”. 3ª Etapa – Experimentação
de partituras de cenas; orientações dramatúrgicas e técnicas. 4ª Etapa: Ensaios
fechados e ensaios abertos ao público; Estreia das obras e avaliação do
processo. Os objetivos específicos do projeto são: possibilitar o
aprofundamento/apropriação/releitura das bases de movimento que caracterizam e
dão singularidade a Dança afro-indígena Cearense nos âmbitos do interior e
capital, especificamente as danças ancestrais e periféricas.
Gerson Moreno, pedagogo, artista de dança e pesquisador.

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