segunda-feira, 25 de maio de 2015

O projeto "Corporeidades Cafuzas": Laboratório de pesquisa e criação

O projeto dispõe-se antes de tudo, discutir a Dança Mestiça Cearense enquanto potência cênica na contemporaneidade, catalogar seus códigos tradicionais, redimensiona-los e produzir por consequência três obras coreográficas a serem compartilhadas com o grande público.


O termo Cafuzo ou carafuzo é resultado da união entre negro e índio. Vários dicionários, como o Houaiss, apontam "origem controversa". O etnólogo angolano Óscar Bento Ribas afirma que vinha do quimbundo kufunzaka, "desbotar". Nosso Ceará é terra de Cafuzos, que para as camadas mais populares ganhou uma outra conotação e significado. O termo transformou-se num neologismo brasileiro para adjetivar os homens mais rudes, de baixa renda, e que geralmente moram nas periferias das cidades. De Cafuzu passou a se chamar “Cafuçú”. Essa conotação dada ao homem Cafuzu ou Mestiço, na verdade resulta de um preconceito histórico para com as camadas pobres que habitam as favelas e periferias das cidades e interiores, especificamente para com as pessoas que trazem nos seus rostos /corpos os traços do Negro e do Índio, imagens que ainda pairam no inconsciente de nossa população com rumores de desprezo, medo e repugnância.

O Corpo Cafuzu que mora nos sertões e periferias do Ceará trazem elementos estéticos/dramatúrgicos/poéticos que nascem da fusão de diversas etnias, nações, tribos, aldeias, quilombos e terreiros, dignos de nossa atenção e olhar investigativo. Trata-se do corpo mestiço, de corporeidades singulares nascidas das nossas ancestralidades e que ganharam na sociedade contemporânea novos formatos, modos de se manter e existir no bojo da periferia.

O objetivo principal desse projeto é desenvolver um Duo e um Solo que partam dos códigos de dança presentes nos rituais da Umbanda Cearense, as corporeidades dos Índios Tremembé e das Danças Urbanas reinventadas na Cidade. Os três intérpretes-criadores beneficiados passarão por etapas distintas de investigação/criação: 1ª Etapa - Oficinas de Dança Afro, danças indígenas e Danças Urbanas; pesquisa de campo em terreiros, comunidades indígenas e periferias de Fortaleza; Palestras abertas a partir dos temas “Mestiçagens e hibridismos afro-indígenas na cena contemporânea”. 2ª Etapa – Oficinas: “Paralelos entre os princípios de Laban e as danças afro cearenses”, “Paralelos entre Laban e as Danças Indígenas”, “Paralelos entre Laban e as Danças Urbanas”; Palestras sobre os temas: “Antropologias e poéticas afro-ameríndias”, “Estéticas da periferia” e “Filosofias ancestrais”. 3ª Etapa – Experimentação de partituras de cenas; orientações dramatúrgicas e técnicas. 4ª Etapa: Ensaios fechados e ensaios abertos ao público; Estreia das obras e avaliação do processo. Os objetivos específicos do projeto são: possibilitar o aprofundamento/apropriação/releitura das bases de movimento que caracterizam e dão singularidade a Dança afro-indígena Cearense nos âmbitos do interior e capital, especificamente as danças ancestrais e periféricas.




Gerson Moreno, pedagogo, artista de dança e pesquisador.

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