terça-feira, 26 de maio de 2015

Sobre as gêneses da Dança Cearense

Desde os primórdios da colonização brasileira, somos vítimas de imposições ideológicas que nos fizeram cativos e submissos dentro de todas as esferas sociais. Até hoje predomina um pensamento eurocêntrico que nos condiciona ao consumo e supervalorização das expressões culturais estrangeiras. Nossas danças tradicionais nascem da fusão de diversas danças continentais, em especial das danças nativas e africanas. Nesse “Panorama Mestiço” temos uma história Oficial que exalta o “Branco colonizador” e as histórias não-oficiais contadas pelos oprimidos, pobres e excluídos, no geral afrodescendentes, indígenas, pardos e cafuzos que habitam os interiores e periferias das cidades. Essas histórias nos trazem à tona as danças singulares nascidas e mantidas pelo povo e nos impulsionam a pensar sobre o que “Fomos”, o que “Somos” e o que “Desejamos Ser” nos novos contextos de Dança Cênica em âmbito cearense.

De um lado temos a história das Danças de Corte que tinham como finalidade ostentar o poder monárquico, do outro lado temos histórias de danças que nasceram do ritual místico, da necessidade de celebrar o trabalho, as colheitas, os ciclos da vida em tribo. Também temos histórias de danças que mesmo perseguidas, conseguiram com bravura se manter vivas e permanecem dançadas até hoje como expressão de resistência popular. Os três intérpretes-criadores que se dispõem desenvolver esse processo são artistas pertencentes a diversas expressões da Dança Mestiça Cearense. Ambos retroalimentam suas pesquisas atuando em grupos populares provindos do interior e periferia. Trazem em comum o desejo de conceber e produzir coletivamente obras coreográficas que sejam atravessadas e nutridas desses contextos. Gerson Moreno (proponente) atua em comunidades quilombolas da região do Litoral Oeste e foi brincante do Maracatu AZ de Espadas de Itapipoca durante 10 anos (mais antigo maracatu do interior cearense). Rubéns Lopes é militante do movimento negro estudantil, desenvolve projetos de formação e criação em Dança Afro na periferia de Fortaleza, especificamente danças de orixás (Candomblé). Loly Pop é BBoy, vem do Movimento de Hip Hop da Capital. Sua primeira escola de dança foi nos espaços populares, nas praças e quadras, onde aprendeu intuitivamente as bases da Dança de Rua.
Em todos os estados brasileiros se constituiu o culto ao caboclo. Nela alguns tipos sociais regionais importantes foram incorporados como divindades, cada um com sua performance-dança. Por exemplo, para compor com o tradicional e destemido índio da terra e com o sábio e paciente escravo preto-velho, foi inserido o caboclo boiadeiro. O boiadeiro é a representação mítica do sertanejo nordestino, o mestiço valente do sertão, em especial no Ceará. É o bravo homem acostumado a lidar com o gado e enfrentar as agruras da seca, símbolo de resistência e determinação. Outro tipo social elevado à categoria de entidade de culto foi o marinheiro. Num país em que as viagens de longa distância, sobretudo entre as capitais da costa, eram feitas por navegação de cabotagem, sendo que todas as novidades eram trazidas pelos navios, o marinheiro era figura muito conhecida e de inegável valor. O marinheiro podia representar ideais de mobilidade e inovação, capacidade de adaptação a cenários múltiplos, amor pela aventura de descobrir novas cidades e outras gentes.
Cada tipo um estilo de vida, cada personagem um modelo de conduta. São exemplos de um vasto repertório de tipos populares brasileiros, emblemas de nossa origem plural, máscaras de nossa identidade mestiça. As entidades sobrenaturais da umbanda não são deuses distantes e inacessíveis, mas sim tipos populares como a gente, espíritos do homem comum numa diversidade que expressa a diversidade cultural do próprio país. "Umbanda não é só uma religião, ela é um palco do Brasil" (Prandi, 1991: 88).
As Danças Negras só podem ser entendidas e redimensionadas através das relações que elas construíram com outras danças existentes em nosso país, no nordeste, Ceará, em especial com as danças indígenas. Nessas relações não há nenhuma pureza; antes, existe um processo contínuo de troca bilateral, de mudança, de criação e recriação, de significação e ressignificação.
A Dança Cearense necessita discutir sua “cearensidade” e identificar quais os alicerces étnicos-ancestrais que caracterizam suas peculiaridades na cena contemporânea. Nossas singularidades inevitavelmente passam pelas historiografias, mestiçagens e rituais que trazemos. O futuro de nossas autonomias artísticas, sociais e culturais cobra de nós um pensamento e posicionamento anticolonialista. Quando nos reapossamos de códigos e partituras corporais provindas de nossas matrizes afro-indígenas para compor um espetáculo de dança, estamos na verdade nos permitindo conhecer e/ou reconhecer as múltiplas possibilidades de sermos, fazermos-nos e nos reinventarmos enquanto Mestiços no Brasil, Nordeste, Ceará, Itapipoca, e assim apossamo-nos de nós mesmos, do que trazemos e revelamos de mais múltiplo, transversal e híbrido. Pouco se conhece sobre as manifestações artísticas de matriz afro-brasileira provindas do Ceará. Existe inclusive uma “tese fragilizada” que defende não existirem negros no Ceará, mesmo em meio à organização maciça de diversas comunidades quilombolas cearenses localizadas em suas serras, praias e sertões de nossos interiores. Geralmente quando são feitas referências à presença negra no nordeste geralmente limita-se a Bahia, Maranhão e Pernambuco. Por conta disso, parte da história e dança afro-brasileira se oculta.
Na história, as “inquietudes criativas” dos coreógrafos e dos chamados intérpretes-criadores, ganham novas feições e anseios frente às emergências que se estabelecem e, muitas vezes, se impõem enquanto contextos contemporâneos. Lidar com o passado é sempre um exercício de compreensão e redimensionamento do presente. Quando revisitadas, as danças mestiças cearenses são dispositivos contemporâneos. Dentro de uma perspectiva de criação a partir de códigos das danças mestiças cearenses, se faz fundamental colher seu sêmen, revelar suas simbologias e signos, suas texturas e as intrínsecas poesias que nelas habitam. Não se trata de dar forma ao que não tem forma, de fazer dançar o que não dança, nem tão pouco de gerar uma poética a partir de uma realidade pesquisada, pois Formas, Danças e Poesias encontram-se latentes nesses “contextos caboclos”. O que precisa acontecer são processos de codificação, apropriação e releituras das mesmas, visando redimensionar suas dramaturgias na Cena Contemporânea, preservando suas peculiaridades e ampliando suas possibilidades de corporificação e performance.

Gerson Moreno, pedagogo, pesquisador e artista de dança.

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