Desde os primórdios da colonização brasileira, somos vítimas de
imposições ideológicas que nos fizeram cativos e submissos dentro de todas as
esferas sociais. Até hoje predomina um pensamento eurocêntrico que nos
condiciona ao consumo e supervalorização das expressões culturais estrangeiras.
Nossas danças tradicionais nascem da fusão de diversas danças continentais, em
especial das danças nativas e africanas. Nesse “Panorama Mestiço” temos uma
história Oficial que exalta o “Branco colonizador” e as histórias não-oficiais
contadas pelos oprimidos, pobres e excluídos, no geral afrodescendentes,
indígenas, pardos e cafuzos que habitam os interiores e periferias das cidades.
Essas histórias nos trazem à tona as danças singulares nascidas e mantidas pelo
povo e nos impulsionam a pensar sobre o que “Fomos”, o que “Somos” e o que
“Desejamos Ser” nos novos contextos de Dança Cênica em âmbito cearense.
De um lado temos a história das Danças de Corte que tinham como finalidade
ostentar o poder monárquico, do outro lado temos histórias de danças que
nasceram do ritual místico, da necessidade de celebrar o trabalho, as
colheitas, os ciclos da vida em tribo. Também temos histórias de danças que
mesmo perseguidas, conseguiram com bravura se manter vivas e permanecem
dançadas até hoje como expressão de resistência popular. Os três
intérpretes-criadores que se dispõem desenvolver esse processo são artistas pertencentes
a diversas expressões da Dança Mestiça Cearense. Ambos retroalimentam suas
pesquisas atuando em grupos populares provindos do interior e periferia. Trazem
em comum o desejo de conceber e produzir coletivamente obras coreográficas que
sejam atravessadas e nutridas desses contextos. Gerson Moreno (proponente) atua
em comunidades quilombolas da região do Litoral Oeste e foi brincante do
Maracatu AZ de Espadas de Itapipoca durante 10 anos (mais antigo maracatu do
interior cearense). Rubéns Lopes é militante do movimento negro estudantil,
desenvolve projetos de formação e criação em Dança Afro na periferia de
Fortaleza, especificamente danças de orixás (Candomblé). Loly Pop é BBoy, vem
do Movimento de Hip Hop da Capital. Sua primeira escola de dança foi nos
espaços populares, nas praças e quadras, onde aprendeu intuitivamente as bases
da Dança de Rua.
Em todos os estados brasileiros se constituiu o culto ao caboclo. Nela alguns
tipos sociais regionais importantes foram incorporados como divindades, cada um
com sua performance-dança. Por exemplo, para compor com o tradicional e
destemido índio da terra e com o sábio e paciente escravo preto-velho, foi
inserido o caboclo boiadeiro. O boiadeiro é a representação mítica do sertanejo
nordestino, o mestiço valente do sertão, em especial no Ceará. É o bravo homem
acostumado a lidar com o gado e enfrentar as agruras da seca, símbolo de
resistência e determinação. Outro tipo social elevado à categoria de entidade
de culto foi o marinheiro. Num país em que as viagens de longa distância,
sobretudo entre as capitais da costa, eram feitas por navegação de cabotagem,
sendo que todas as novidades eram trazidas pelos navios, o marinheiro era
figura muito conhecida e de inegável valor. O marinheiro podia representar
ideais de mobilidade e inovação, capacidade de adaptação a cenários múltiplos,
amor pela aventura de descobrir novas cidades e outras gentes.
Cada tipo um estilo de vida, cada personagem um modelo de conduta. São exemplos
de um vasto repertório de tipos populares brasileiros, emblemas de nossa origem
plural, máscaras de nossa identidade mestiça. As entidades sobrenaturais da
umbanda não são deuses distantes e inacessíveis, mas sim tipos populares como a
gente, espíritos do homem comum numa diversidade que expressa a diversidade
cultural do próprio país. "Umbanda não é só uma religião, ela é um palco
do Brasil" (Prandi, 1991: 88).
As Danças Negras só podem ser entendidas e redimensionadas através das relações
que elas construíram com outras danças existentes em nosso país, no nordeste,
Ceará, em especial com as danças indígenas. Nessas relações não há nenhuma
pureza; antes, existe um processo contínuo de troca bilateral, de mudança, de
criação e recriação, de significação e ressignificação.
A Dança Cearense necessita discutir sua “cearensidade” e identificar quais os
alicerces étnicos-ancestrais que caracterizam suas peculiaridades na cena
contemporânea. Nossas singularidades inevitavelmente passam pelas
historiografias, mestiçagens e rituais que trazemos. O futuro de nossas
autonomias artísticas, sociais e culturais cobra de nós um pensamento e
posicionamento anticolonialista. Quando nos reapossamos de códigos e partituras
corporais provindas de nossas matrizes afro-indígenas para compor um espetáculo
de dança, estamos na verdade nos permitindo conhecer e/ou reconhecer as
múltiplas possibilidades de sermos, fazermos-nos e nos reinventarmos enquanto
Mestiços no Brasil, Nordeste, Ceará, Itapipoca, e assim apossamo-nos de nós
mesmos, do que trazemos e revelamos de mais múltiplo, transversal e híbrido.
Pouco se conhece sobre as manifestações artísticas de matriz afro-brasileira
provindas do Ceará. Existe inclusive uma “tese fragilizada” que defende não
existirem negros no Ceará, mesmo em meio à organização maciça de diversas
comunidades quilombolas cearenses localizadas em suas serras, praias e sertões
de nossos interiores. Geralmente quando são feitas referências à presença negra
no nordeste geralmente limita-se a Bahia, Maranhão e Pernambuco. Por conta
disso, parte da história e dança afro-brasileira se oculta.
Na história, as “inquietudes criativas” dos coreógrafos e dos chamados
intérpretes-criadores, ganham novas feições e anseios frente às emergências que
se estabelecem e, muitas vezes, se impõem enquanto contextos contemporâneos.
Lidar com o passado é sempre um exercício de compreensão e redimensionamento do
presente. Quando revisitadas, as danças mestiças cearenses são dispositivos
contemporâneos. Dentro de uma perspectiva de criação a partir de códigos das
danças mestiças cearenses, se faz fundamental colher seu sêmen, revelar suas
simbologias e signos, suas texturas e as intrínsecas poesias que nelas habitam.
Não se trata de dar forma ao que não tem forma, de fazer dançar o que não
dança, nem tão pouco de gerar uma poética a partir de uma realidade pesquisada,
pois Formas, Danças e Poesias encontram-se latentes nesses “contextos
caboclos”. O que precisa acontecer são processos de codificação, apropriação e
releituras das mesmas, visando redimensionar suas dramaturgias na Cena
Contemporânea, preservando suas peculiaridades e ampliando suas possibilidades
de corporificação e performance.
Gerson Moreno, pedagogo, pesquisador e artista de dança.

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