segunda-feira, 30 de novembro de 2015
Solo Repertórios Morenos | Gerson Moreno | Bienal Internacional de Dança do Ceará 2015
domingo, 6 de setembro de 2015
Espetáculo Cafuçus | Cia Balé Baião e suas dramaturgias caboclas
A obra de dança "Cafuçus", estreou no Galpão da Cena de Itapipoca CE, na Mostra Performática Intenções 2015.
Espetáculo CAFUÇUS | Apresentação na Mostra Performática Intenções, Ponto de Cultura Galpão da Cena de Itapipoca CE, Julho de 2015.
O projeto de pesquisa desenvolvido pela Cia Balé Baião: “Corporeidades cafuzas”, é articulado pelo pedagogo, dançarino, coreógrafo, professor de dança Gerson Moreno em Itapipoca CE. O espetáculo “Cafuçus” é uma tríade que começa em 2013 com o duo “Cafuçu.com”, seguindo com o solo “Terreiros mestiços” em 2014.
Em cena quatro homens cafuzos de contextos distintos e corpos singulares, estabelecem relações gradativas que se desdobram a partir de suas danças, pessoalidades e histórias de vida.
Um deles é BBoy, outro é capoeirista, um é quadrilheiro junino e outro é jogador de futebol. Em comum os quatro trazem as práticas semanais de danças afro-brasileiras e dança contemporânea realizadas no Galpão da Cena, a partir da pesquisa de corporeidades desenvolvida pela Cia Balé Baião. Ambos anseiam pela necessidade de experimentar, vivenciar proposições, criar em coletivo e estabelecer compartilhas com a comunidade.
O termo Cafuzo ou carafuzo, é resultado da união entre negro e índio. Vários dicionários, como o Houaiss, apontam "origem controversa". O etnólogo angolano Óscar Bento Ribas afirma que vinha do quimbundo kufunzaka, "desbotar". Nosso Ceará é terra de Cafuzos, que para as camadas mais populares ganhou uma outra conotação e significado. O termo transformou-se num neologismo brasileiro para adjetivar os homens mais rudes, de baixa renda, e que geralmente moram nas periferias das cidades.
De Cafuzu passou a se chamar “Cafuçu”. Essa conotação dada ao homem Cafuzu ou Mestiço, na verdade resulta de um preconceito histórico para com as camadas pobres que habitam as favelas e periferias das cidades e interiores, especificamente para com as pessoas que trazem nos seus rostos /corpos os traços do Negro e do Índio, imagens que ainda pairam no inconsciente de nossa população com rumores de desprezo, medo e repugnância.
O Corpo Cafuzu que mora nos sertões e periferias do Ceará trazem elementos estéticos/dramatúrgicos/poéticos que nascem da fusão de diversas etnias, nações, tribos, aldeias, quilombos e terreiros, dignos de nossa atenção e olhar investigativo.
Trata-se do corpo mestiço, de corporeidades singulares nascidas das nossas ancestralidades e que ganharam na sociedade contemporânea novos formatos, modos de se manter e existir no bojo da periferia.
Ficha técnica:
Concepção/direção:
GERSON MORENO
Dançarinos/Cafuçus:
LUÍS EDUARDO
EDSON KEIRÓZ
JÚLIO MOTA
BENEDITO MAX
Video teaser da obra:
terça-feira, 26 de maio de 2015
Torém dos Tremembé
Os tremembé são um grupo étnico
indígena que habita os limites do município brasileiro de Itarema, no litoral
do estado do Ceará, mais precisamente na Área Indígena Tremembé de Almofala
(Itarema), Terras Indígenas São José e Buriti (Itapipoca), Córrego do João
Pereira (Itarema e Acaraú) e Tremembé de Queimadas (Acaraú).
Os tremembé eram originalmente
nômades que viviam num território que estendia-se do sul do Maranhão até o Rio
Acaraú, no atual estado do Ceará. Foram aldeados pelos Jesuítas no século XVII
nas missões de Tutoya (Tutóia-Maranhão), Aldeia do Cajueiro (Almofala) e Soure (Caucaia).
Foram declarados como não
existentes pelo então governador da Província do Ceará (José Bento da Cunha
Figueiredo Júnior), após decreto de 1863. Antes disto, em 1854, os índios
perderam o direito da terra pela regulamentação da Lei da Terra. Estes
ressurgem no cenário cearense nas décadas de 1980 e 1990, quando são
reconhecidos pela Fundação Nacional do Índio.
Os tremembé
conseguiram guardar
um pouco da sua arte e cultura. Eles ainda dançam o torém (uma dança ritual) e
ainda produzem o mocororó (vinho de caju azedo fermentado). Eles costumam
pintar as paredes das suas habitações e cerâmicas com motivos simbólicos do seu
habitat, como: o caju, a rolinha, peixes, caranguejos e outros. As mulheres
tremembés confeccionam biojoias, como colares e pulseiras com conchas, búzios e
sementes. A tecelagem também é confeccionada por estes.
A dança:
Nos séculos XVI e XVII, os
Tremembé ocupavam a extensa região litorânea que segue do atual Pará ao Ceará.
Com a colonização portuguesa, aldeamentos missionários foram criados ao longo
das terras. No Ceará os índios se fixaram no aldeamento Aracati-mirim na
chamada Missão Nossa Senhora da Conceição dos Tremembé, era uma instituição de
catequese, mas voltava-se também aos serviços religiosos para a população
regional.
Acredita-se que em época anterior
tenham povoado até a foz do Açú ou mesmo o Cabo de São Roque, chegando ao
Gurupi, no Pará. Alimentavam-se de peixe e carne, embora fossem mais pescadores
do que caçadores. Usavam cerâmica grosseira, cabaças e apreciavam muito caju e
a tartaruga. Plantavam mandioca e algodão e Criavam cães. Moravam em choças
construídas com ramos ou folhas de palmeira e dormiam nas areias das
praias[...]. De Espírito Belicoso, chamaram a atenção dos viajantes espanhóis,
franceses e portugueses. Pouco se conhecia sobre o seu sistema de parentesco e
organização política. Sua língua também é desconhecida, restando apenas alguns
vocábulos recolhidos na dança do Torém, ainda hoje executada na cidade de
Almofala. (SILVA, 2003, p.56-57)
O Torém atualmente é o elemento
da cultura Tremembé que mais resistiu ao processo de aculturação iniciado na
colonização. Trata-se de uma dança realizados por pessoas de ambos os sexos que
dançam em uma roda aos som dos instrumentos iguaré e flauta, ao decorrer da
dança os participantes bebem e cantam músicas utilizando-se da antiga língua
Tremembé.
Era definida como um folguedo
ou dança folclórica organizada por caboclos ou descendentes de índios. Ou era
vista como uma Sobrevivência da “cultura originária” dos Tremembé. Se era
valorizada como sobrevivência cultural, temia-se pelo seu desaparecimentos.
Além de ser uma visão estática da cultura, sugeria a continuidade de um “modo
de ser” indígena, que se mostrava presentemente diluído por traços cada vez
mais “aculturados”.(VALLE, 2005, p. 197)
Em 1965 José Silva Novo,
professor de educação artística da Universidade Federal do Ceará, foi um dos
principais incentivadores da participação dos torenzeiros no Festival de
Folclore da UFC realizado naquele ano. Ele conseguiu juntamente com a
prefeitura de Itapipoca ajuda financeira para trazer os índios e ajudar na
compra dos materiais utilizados nos adornos como tecidos, penas entre outros.
Novo relata que sua intenção era mostrar a Fortaleza e aos outros estados a
beleza da cultura dos Tremembé. “Mas o meu interesse na exibição daquela dança
era fora do comum. Queria que Fortaleza inteira, que os folcloristas do Brasil,
sentissem e vissem de perto, e com os olhos arregalados, aquela beleza de
folclore já quase deturpado”. (NOVO, 1976)
Sobre as gêneses da Dança Cearense
Desde os primórdios da colonização brasileira, somos vítimas de
imposições ideológicas que nos fizeram cativos e submissos dentro de todas as
esferas sociais. Até hoje predomina um pensamento eurocêntrico que nos
condiciona ao consumo e supervalorização das expressões culturais estrangeiras.
Nossas danças tradicionais nascem da fusão de diversas danças continentais, em
especial das danças nativas e africanas. Nesse “Panorama Mestiço” temos uma
história Oficial que exalta o “Branco colonizador” e as histórias não-oficiais
contadas pelos oprimidos, pobres e excluídos, no geral afrodescendentes,
indígenas, pardos e cafuzos que habitam os interiores e periferias das cidades.
Essas histórias nos trazem à tona as danças singulares nascidas e mantidas pelo
povo e nos impulsionam a pensar sobre o que “Fomos”, o que “Somos” e o que
“Desejamos Ser” nos novos contextos de Dança Cênica em âmbito cearense.
De um lado temos a história das Danças de Corte que tinham como finalidade
ostentar o poder monárquico, do outro lado temos histórias de danças que
nasceram do ritual místico, da necessidade de celebrar o trabalho, as
colheitas, os ciclos da vida em tribo. Também temos histórias de danças que
mesmo perseguidas, conseguiram com bravura se manter vivas e permanecem
dançadas até hoje como expressão de resistência popular. Os três
intérpretes-criadores que se dispõem desenvolver esse processo são artistas pertencentes
a diversas expressões da Dança Mestiça Cearense. Ambos retroalimentam suas
pesquisas atuando em grupos populares provindos do interior e periferia. Trazem
em comum o desejo de conceber e produzir coletivamente obras coreográficas que
sejam atravessadas e nutridas desses contextos. Gerson Moreno (proponente) atua
em comunidades quilombolas da região do Litoral Oeste e foi brincante do
Maracatu AZ de Espadas de Itapipoca durante 10 anos (mais antigo maracatu do
interior cearense). Rubéns Lopes é militante do movimento negro estudantil,
desenvolve projetos de formação e criação em Dança Afro na periferia de
Fortaleza, especificamente danças de orixás (Candomblé). Loly Pop é BBoy, vem
do Movimento de Hip Hop da Capital. Sua primeira escola de dança foi nos
espaços populares, nas praças e quadras, onde aprendeu intuitivamente as bases
da Dança de Rua.
Em todos os estados brasileiros se constituiu o culto ao caboclo. Nela alguns
tipos sociais regionais importantes foram incorporados como divindades, cada um
com sua performance-dança. Por exemplo, para compor com o tradicional e
destemido índio da terra e com o sábio e paciente escravo preto-velho, foi
inserido o caboclo boiadeiro. O boiadeiro é a representação mítica do sertanejo
nordestino, o mestiço valente do sertão, em especial no Ceará. É o bravo homem
acostumado a lidar com o gado e enfrentar as agruras da seca, símbolo de
resistência e determinação. Outro tipo social elevado à categoria de entidade
de culto foi o marinheiro. Num país em que as viagens de longa distância,
sobretudo entre as capitais da costa, eram feitas por navegação de cabotagem,
sendo que todas as novidades eram trazidas pelos navios, o marinheiro era
figura muito conhecida e de inegável valor. O marinheiro podia representar
ideais de mobilidade e inovação, capacidade de adaptação a cenários múltiplos,
amor pela aventura de descobrir novas cidades e outras gentes.
Cada tipo um estilo de vida, cada personagem um modelo de conduta. São exemplos
de um vasto repertório de tipos populares brasileiros, emblemas de nossa origem
plural, máscaras de nossa identidade mestiça. As entidades sobrenaturais da
umbanda não são deuses distantes e inacessíveis, mas sim tipos populares como a
gente, espíritos do homem comum numa diversidade que expressa a diversidade
cultural do próprio país. "Umbanda não é só uma religião, ela é um palco
do Brasil" (Prandi, 1991: 88).
As Danças Negras só podem ser entendidas e redimensionadas através das relações
que elas construíram com outras danças existentes em nosso país, no nordeste,
Ceará, em especial com as danças indígenas. Nessas relações não há nenhuma
pureza; antes, existe um processo contínuo de troca bilateral, de mudança, de
criação e recriação, de significação e ressignificação.
A Dança Cearense necessita discutir sua “cearensidade” e identificar quais os
alicerces étnicos-ancestrais que caracterizam suas peculiaridades na cena
contemporânea. Nossas singularidades inevitavelmente passam pelas
historiografias, mestiçagens e rituais que trazemos. O futuro de nossas
autonomias artísticas, sociais e culturais cobra de nós um pensamento e
posicionamento anticolonialista. Quando nos reapossamos de códigos e partituras
corporais provindas de nossas matrizes afro-indígenas para compor um espetáculo
de dança, estamos na verdade nos permitindo conhecer e/ou reconhecer as
múltiplas possibilidades de sermos, fazermos-nos e nos reinventarmos enquanto
Mestiços no Brasil, Nordeste, Ceará, Itapipoca, e assim apossamo-nos de nós
mesmos, do que trazemos e revelamos de mais múltiplo, transversal e híbrido.
Pouco se conhece sobre as manifestações artísticas de matriz afro-brasileira
provindas do Ceará. Existe inclusive uma “tese fragilizada” que defende não
existirem negros no Ceará, mesmo em meio à organização maciça de diversas
comunidades quilombolas cearenses localizadas em suas serras, praias e sertões
de nossos interiores. Geralmente quando são feitas referências à presença negra
no nordeste geralmente limita-se a Bahia, Maranhão e Pernambuco. Por conta
disso, parte da história e dança afro-brasileira se oculta.
Na história, as “inquietudes criativas” dos coreógrafos e dos chamados
intérpretes-criadores, ganham novas feições e anseios frente às emergências que
se estabelecem e, muitas vezes, se impõem enquanto contextos contemporâneos.
Lidar com o passado é sempre um exercício de compreensão e redimensionamento do
presente. Quando revisitadas, as danças mestiças cearenses são dispositivos
contemporâneos. Dentro de uma perspectiva de criação a partir de códigos das
danças mestiças cearenses, se faz fundamental colher seu sêmen, revelar suas
simbologias e signos, suas texturas e as intrínsecas poesias que nelas habitam.
Não se trata de dar forma ao que não tem forma, de fazer dançar o que não
dança, nem tão pouco de gerar uma poética a partir de uma realidade pesquisada,
pois Formas, Danças e Poesias encontram-se latentes nesses “contextos
caboclos”. O que precisa acontecer são processos de codificação, apropriação e
releituras das mesmas, visando redimensionar suas dramaturgias na Cena
Contemporânea, preservando suas peculiaridades e ampliando suas possibilidades
de corporificação e performance.
Gerson Moreno, pedagogo, pesquisador e artista de dança.
segunda-feira, 25 de maio de 2015
O projeto "Corporeidades Cafuzas": Laboratório de pesquisa e criação
O projeto dispõe-se antes de tudo, discutir a Dança Mestiça Cearense
enquanto potência cênica na contemporaneidade, catalogar seus códigos
tradicionais, redimensiona-los e produzir por consequência três obras
coreográficas a serem compartilhadas com o grande público.
O termo Cafuzo ou carafuzo é resultado da união entre negro e índio. Vários
dicionários, como o Houaiss, apontam "origem controversa". O etnólogo
angolano Óscar Bento Ribas afirma que vinha do quimbundo kufunzaka,
"desbotar". Nosso Ceará é terra de Cafuzos, que para as camadas mais
populares ganhou uma outra conotação e significado. O termo transformou-se num
neologismo brasileiro para adjetivar os homens mais rudes, de baixa renda, e
que geralmente moram nas periferias das cidades. De Cafuzu passou a se chamar
“Cafuçú”. Essa conotação dada ao homem Cafuzu ou Mestiço, na verdade resulta de
um preconceito histórico para com as camadas pobres que habitam as favelas e
periferias das cidades e interiores, especificamente para com as pessoas que
trazem nos seus rostos /corpos os traços do Negro e do Índio, imagens que ainda
pairam no inconsciente de nossa população com rumores de desprezo, medo e
repugnância.
O Corpo Cafuzu que mora nos sertões e periferias do Ceará trazem elementos
estéticos/dramatúrgicos/poéticos que nascem da fusão de diversas etnias,
nações, tribos, aldeias, quilombos e terreiros, dignos de nossa atenção e olhar
investigativo. Trata-se do corpo mestiço, de corporeidades singulares nascidas
das nossas ancestralidades e que ganharam na sociedade contemporânea novos
formatos, modos de se manter e existir no bojo da periferia.
O objetivo principal desse projeto é desenvolver um Duo e um Solo que partam
dos códigos de dança presentes nos rituais da Umbanda Cearense, as
corporeidades dos Índios Tremembé e das Danças Urbanas reinventadas na Cidade.
Os três intérpretes-criadores beneficiados passarão por etapas distintas de
investigação/criação: 1ª Etapa - Oficinas de Dança Afro, danças indígenas e
Danças Urbanas; pesquisa de campo em terreiros, comunidades indígenas e
periferias de Fortaleza; Palestras abertas a partir dos temas “Mestiçagens e
hibridismos afro-indígenas na cena contemporânea”. 2ª Etapa – Oficinas:
“Paralelos entre os princípios de Laban e as danças afro cearenses”, “Paralelos
entre Laban e as Danças Indígenas”, “Paralelos entre Laban e as Danças
Urbanas”; Palestras sobre os temas: “Antropologias e poéticas afro-ameríndias”,
“Estéticas da periferia” e “Filosofias ancestrais”. 3ª Etapa – Experimentação
de partituras de cenas; orientações dramatúrgicas e técnicas. 4ª Etapa: Ensaios
fechados e ensaios abertos ao público; Estreia das obras e avaliação do
processo. Os objetivos específicos do projeto são: possibilitar o
aprofundamento/apropriação/releitura das bases de movimento que caracterizam e
dão singularidade a Dança afro-indígena Cearense nos âmbitos do interior e
capital, especificamente as danças ancestrais e periféricas.
Gerson Moreno, pedagogo, artista de dança e pesquisador.
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